APRESENTAÇÃO

Está quase se tornando uma rotina da Web-Revista prestar homenagens a professores de trajetória que se possa considerar com sentidos de notável quer pela contribuição histórica de sua atividade, quer pela dedicação a carreira acadêmica de pesquisador e formador de novos quadros.

Em um momento em que os mitos, os heróis, as personalidades e as referências são criações midiáticas, um dos aspectos do neoliberalismo em que sem prega o fim da ideologia e história, acaba por silenciar ou mesmo deixar discursos em suspenso, in-significados, relegá-los ao ostracismo da história, não o que se possa nomear de herói, mas de mestres. No entanto, há de se reconhecer que prestar homenagens aos nossos “mestres” ou mesmo reconhecer sua contribuição ainda em vida não é uma posição discursiva nada confortável em seus efeitos de sentidos, cheio de olhares oblíquos provando uma tensão nas redes da memória discursiva. A prática discursiva tem sido a esperar a “partida” para poder discursivizar sobre os “mestres”.

A homenagem é um reconhecimento de um sentido de singularidade, de uma posição sujeito em que para ocupá-la não acontece sem um embate com a memória que tente a absorver qualquer acontecimento, tente absorver qualquer posição que reivindique um espaço próprio na ordem do discurso. Para enunciar desse espaço singular, muitos se inscrevem, no entanto, apenas alguns o fazem com sentidos capazes de garantir a entrada e permanência na ordem do discurso. Há um discurso no senso comum que somente depois da morte se possa dizer se a pessoa em sua individuação foi significativa ou não, isso se considerarmos que ninguém é insubstituível, também outro discurso do cotidiano.

Não se pode ignorar que alguns acontecimentos podem e produzem efeitos diferenciados, muito embora possa se discursivizar que qualquer dito em vida pode assumir sentidos outros, na mesma proporção, também pode se dizer que depois que se morre também há um comprometimento de sentidos ao homenageado. Assim, a homenagem possui sentidos que percorrem trajetos limites de ser uma posição banal ou com o mérito devido. Como concebe Pêcheux (2002), as “coisas-a-saber” nunca se tem a garantia do que se fala seja isso ou aquilo.

Assim, o projeto era prestar esta homenagem ao Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira ainda em vida quando em novembro em seu gabinete na UFMS foi combinado que ele faria uma aula inaugural na UEMS – Campo Grande (cursos de Letras: Licenciatura, Bacharelado, Mestrados: acadêmico e profissional), mas a sua retirada da ordem do discurso não foi possível a ele e a nós experienciar a homenagem pela trajetória que daqui por em diante pertence não mais a ele, mas aos outros que discursivizaram sobre ele, já que ele não mais poderá ocupar lugar no discurso. Fica a nossa mensagem, o nosso discurso e também o seu discurso que ele confiou a nós.

 

Desta Terra do Pantanal.

Campo Grande, Janeiro de 2014.

Prof. Dr. Marlon L. Rodrigues