PROF. DR. DERCIR PEDRO DE OLIVEIRA

Homenagem In Memoriam

 

Eu quero dizer que estou satisfeito com aquilo que fiz na universidade desde meu tempo de graduação em que participava de semanas acadêmicas, viagens de estudo, sempre fui preocupado com isso. Na universidade eu fui sempre preocupado com o trabalho do aluno na elaboração de plano de trabalho. Eu acho que a nossa função como professor pesquisador é fazer com que aquele conhecimento vá além daquilo que você sabe por meio das atividades dos alunos. Então o que eu quero mais é que eles estudem, que eles aproveitem essa oportunidade que o governo tem dado de bolsa, bolsa, bolsa, bolsa. Que eles sejam bens formados e grandes profissionais.

Prof. Dr. Derci Pedro de Oliveira, 2011.

 

Marlon Leal Rodrigues

NEAD/UEMS

Moraima Aparecida Anastacio Vilela

UEMS

 

Introdução

 

O presente texto é um trabalho desenvolvidos em 2011 pelos alunos dos cursos de Letras: Português/Espanhol, Português Inglês e suas respectivas Literaturas, e pela primeira turma de Bacharelado em Letras. A proposta se circunscreve tendo como referência o “discurso” (ORLANDI, 2002) sobre o “sentido” (Idem) do professor nas últimas décadas, que de certa forma podemos como negativos. Desde o discurso do cotidiano (DE CERTEAU, 1997) até o do Estado a representação discursiva vem marcada por baixos salários, professores abandonado a carreira do magistério, muitas vezes com condições precárias para atuar, nos últimos anos, sendo agredido simbólico e fisicamente, sem considerar os professores que se afastam – muitos são desviados de funções por não conseguirem mais se adentrar em salas de aula - por problemas de psicológicos cuja origem é a sala de aula.

Diante de um quadro preocupante, foi elaborado com a primeira turma dos cursos de Letras um projeto de Memória de Vida e Didática Pedagógica de Professores de Língua Portuguesa. Optou-se por entrevistar professor universitário com muitos anos de experiência em decorrência deles em sua trajetória acadêmica possuir uma “memória discursiva” que pudesse se de alguma forma “socializada” com os novos professores, que fosse, ou seja, material de reflexão para as novas gerações de professores.

Um outro aspecto, não menos importante que o segundo, é também de fazer uma homenagem aos professores que por suas “mãos” muitos alunos se formaram, professores que também serviram de modelo e exemplo tanto para o ensino quanto para as novas gerações de pesquisadores. O aspecto que destacamos aqui é o de homenagear esses professores, uma homenagem simbólica, mas que fique o reconhecimento das atuais gerações para aqueles que podemos chamar de mestres que atuam no anonimato da desvalorização social e em muitas vezes dos próprios alunos que formam cotidianamente.

Os resultados deste projeto vêm público com um atraso significativo de tempo face as diversas demandas acadêmicas, mas “antes tarde do que mais tarde”.

O Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira, entre outros professores que terão uma edição da presente revista, é o primeiro, a sua homenagem estava prevista para março deste ano nos cursos de Letras da UEMS da Unidade Universitária de Campo Grande (Letras: licenciaturas, bacharelado e mestrados: acadêmico e profissional). Foi feito um convite a ele ainda novembro de 2103, ele ministraria uma aula inaugural e na sequência viria uma homenagem com a publicação de sua entrevista e um discurso “depoimento” do Prof. Dr. Wagner Enedino Corsino (UFMS-Três Lagoas), no entanto ele não pode esperar a homenagem que vem publicada nesta edição.

Como roteiro, tem-se o relatório das entrevistas que abrange desde os primeiros contatos com suas dificuldades até as impressões e fatos da entrevista. Os alunos relatam a trajetória para entrevistar o professor homenageado e o professor que por certas relações de amizade e proximidade, foi entrevistado para dar um “depoimento” do homenageado.

Após relatório da entrevista, segue a entrevista “depoimento” e por fim a entrevista com o Prof. Dr. Derci Pedro de Oliveira. Houve ainda um momento de leitura dos entrevistados após a gravação para pequenos ajustes, ou seja, a entrevista gravada e transcrita foi entregue aos entrevistados para uma leitura e posterior publicação.

 

Relatório das Entrevistas

 

A princípio surgiram duas opções de contato ao homenageado, o Prof. Dr. Wagner Enedino Corsino (UFMS-Três Lagoas) e uma outra professora, ambos da cidade de Três Lagoas. Foram feitas algumas tentativas de contato para verificar a disponibilidade de entrevista, a professora respondeu aos e-mails e marcou um horário, porém teríamos de nos deslocar até a cidade para entrevistá-la, ela estava sem disponibilidade de vir a Campo Grande. Agradecemos a sua colaboração mas só foi possível fazer a entrevista com o Prof. Wagner E. Corsino, pois, naquela época ele vinha constantemente a Campo Grande.

Faltava ainda o contato com o professor que homenageado, após alguns contatos com ele, devido às dificuldades de locomoção da equipe e de encontrar uma vaga na agenda homenageado o professor Dercir Pedro de Oliveira, contatamos o professor orientador informando-o sobre as dificuldades que enfrentávamos, ele insistiu para que não desistíssemos e continuássemos tentando contato, “a vida acadêmica de quem atua ativamente é assim mesmo”.

Nesse ínterim o Prof. Wagner E. Corsino mandou-nos um e-mail, após estes contratempos, ele informou que viria a Campo Grande e poderia nos ajudar, marcamos a entrevista com ele no dia 16 de setembro às 11h30min da manhã na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mas foi adiada devido a um compromisso do professor. Remarcamos então para as 16h00min no mesmo local. Desta vez aconteceu. Ele foi extremamente educado e receptivo para conosco, desde o envio de e-mails até a entrevista, mostrou-se interessado em nosso trabalho e nos auxiliou o máximo que pôde com todas as informações que precisamos sobre o professor homenageado.

O prof. Wagner E. Corsino nos recebeu com muito carinho, respondeu a todas as perguntas bem humorado, transpassava segurança com seu olhar, educado, parecia estar em êxtase quando falava do Prof. Dercir Pedro, dava para perceber a admiração, carinho e muito respeito em sua fala e em seu olhar, e que de uma relação aluno professor nasceu uma relação de grande amizade e respeito. Após o termino da entrevista ele se colocou a disposição do nosso grupo para nos ajudar no que precisássemos.

Já a entrevista com o nosso homenageado foi um pouco mais complicada, demoramos basicamente três meses para conseguir agendar uma entrevista com ele, pois sua agenda estava muito cheia, não conseguíamos contato nem por telefone, nem[ por e-mail, então fomos até a PROPP da UFMS, lá sim conseguimos falar com sua secretaria, e após três meses finalmente conseguimos agendar a entrevista. Ela ocorreu na própria PROPP no dia 8 de novembro as 14h00min, 2011.

O Prof. Dercir Pedro de Oliveira nos recebeu com carinho e teve uma grande surpresa, pois o mesmo não sabia que a UEMS tinha um campo aqui em Campo Grande, (o que nos causou grande pesar), seu olhar e sua expressão era de alegria, de orgulho por uma universidade que não é a UFMS realizando e reconhecendo seus trabalhos acadêmicos; suas respostas foram rápidas e objetivas, uma pessoa extremamente brincalhona, demonstrava satisfação em nos contar um pouco mais a fundo sua vida acadêmica do inicio até hoje, e aparentou ser um incentivador dos estudantes, elogiou muito o projeto que o professor Marlon Leal Rodrigues desenvolveu conosco, comentou que foi professor dele no Mestrado de Três Lagoas, lamentava apenas ele ser analista do discurso e não gerativas (brincadeira).

 

Entrevista “Depoimento”: Prof. Dr. Wagner Enedino Corsino

 

- Moraima: Quando e como conheceu o Prof. Dercir Pedro?

 

- Prof. Wagner: Eu conheci o professor Dercir Pedro de Oliveira no ano de 1996 (ano de meu ingresso como aluno na UFMS), no Campus de Três Lagoas, no curso de Letras. Neste mesmo ano, tive aula com ele na disciplina Linguística I, em que abordava pressupostos teóricos de Ferdinand de Saussure e os princípios da Sociolinguística. Então, eu conheci o professor Dercir como um grande profissional da área de Letras.

 

- Moraima: Que tipo de relação que o senhor mantém ou manteve com o professor Dercir Pedro, relação pessoal e profissional?

 

- Prof. Wagner: Sempre tive uma boa relação profissional com o professor Dercir, além de tê-lo como amigo pessoal. De 1996 a 1999 cursei Letras na UFMS/Três Lagoas. Depois fui fazer mestrado e doutorado, porém sempre necessitando direta ou indiretamente do auxílio do professor. Ocorre, todavia, que mesmo indo para outro campo do conhecimento, que é a Literatura, eu sempre necessitei dos mecanismos da linguística para fazer uma análise literária consistente. Fundamentos da linguística aplicada, questões relacionadas aos estudos de dialogismo e discursividade, tudo isso eu sempre recorri a grandes mestres que tive. Dessa forma, mesmo depois de formado, sempre recorri àquele que para mim sempre foi uma referência profissional: Dercir Pedro de Oliveira. Depois de ter defendido o meu doutoramento, fui para a Universidade Federal do Acre, via concurso público, e sempre mantinha contato com ele. Depois, concorri a uma vaga na UFMS, em 2006. Neste ano, o professor Dercir já estava trabalhando em Campo Grande na Coordenadoria de Pesquisa.

 

- Moraima: Conte uma passagem, um episódio importante na carreira acadêmica e na vida pessoal do professor Dercir Pedro.

 

- Prof. Wagner: Há alguns fatos com relação a minha trajetória acadêmica em que o professor Dercir se faz presente. Eu tive, no início, dificuldade para compreender os pressupostos teóricos da lingüística. Nesse segmento, destaca-se que o professor Dercir possui uma didática clara e objetiva. Lembro-me quando ele recorria a telenovelas para ilustrar suas explicações de Sociolinguística, uma vez que é um consumidor deste produto cultural. Personagens como Timóteo, da telenovela Tieta, interpretada pelo ator Paulo Betti, sempre eram lembradas por ele como exemplo de variação linguística.

 

- Moraima: Em sua opinião como o senhor definiria o professor Dercir Pedro, profissionalmente e pessoalmente?

 

- Prof. Wagner: Professor Dercir é uma pessoa transparente e não mede esforços para ajudar o próximo. Tem um coração muito bom. Possui grande generosidade e a franqueza vem na mesma proporção. Além desses adjetivos, trata-se de um pesquisador sério por quem nutro muito respeito.

 

- Moraima: O professor Dercir Pedro lhe influenciou de alguma maneira em sua carreira?

 

- Prof. Wagner: Sem sombra de dúvida. Existe até um texto do professor Dercir, publicado pela própria UFMS, se não me falha a memória, sobre gramática gerativa cujo subtítulo é “uma conversa pra quem não é do ramo”. Eu sou muito grato a ele porque li o texto antes de ser publicado. Ele fez uma nota de rodapé, colocando que a leitura do original foi minha, e tenho isso como uma grata satisfação. Importa mencionar que parte da minha dissertação de mestrado recorri ao professor Dercir pra que me auxiliasse nas questões de análise linguística.

 

- Moraima: Comente como era a relação do professor com os colegas de trabalho e com seus alunos?

 

- Prof. Wagner: A relação do professor Dercir com colegas de trabalho sempre foi pautada de franqueza, honestidade e transparência. Se há um termo que não se aplica a ele é omissão, pois sempre demarcou suas posições ideológicas. Já a relação com os alunos era de rigidez intelectual, porém sempre arrancava risos durante as aulas e nas conversas informais pelos corredores da universidade.

 

- Moraima: O que o senhor acha que permanecerá do professor Dercir nas pesquisas acadêmicas, para os alunos e seus colegas de trabalho?

 

- Prof. Wagner: O professor Dercir desenvolveu uma pesquisa de fôlego, que é o Atlas Linguístico de Mato Grosso do Sul. Trata-se de um trabalho consistente, o qual aqueles que trabalham direta ou indiretamente com Sociolinguística, em algum momento, terão que fazer menção ao seu postulado.

 

- Moraima: Então o senhor julga que todos os trabalhos do professor Dercir são e vão ser significativos?

 

- Prof. Wagner: Eles são importantes e é aporte para futuras pesquisas. Durante toda a sua trajetória acadêmica o professor Dercir se dedicou à Sociolingüística. Com efeito, considero seminal colocar o trabalho desenvolvido por ele ao lado de grandes pesquisadores da América Latina.

 

Entrevista com o Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira

 

A entrevista foi realizada na UFMS – Campo Grande – Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação.

 

- Graduandos: Por que escolheu o curso de Letras para sua graduação?

 

- Prof. Dercir: Eu sou Dercir Pedro de Oliveira, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFMS e vamos colaborar com a Moraima.

Eu tinha vontade de fazer história, mas ai um amigo meu foi fazer a Faculdade de Letras com Francês e me disse da importância do curso, então eu aceitei, fui e gostei.

 

- Moraima: O que era ser professor de Língua Portuguesa na sua época?

 

- Prof. Dercir: Na minha época, o curso de Letras era voltado mais para o núcleo duro, então a gente ensinava em Língua Portuguesa: sintaxe, morfologia, semântica e estilística. Não havia didática de não sei o que, de interpretação de texto, esses negócios não existiam na nossa época. Então, a gente estudava profundamente a língua e a literatura, e de forma muito sistemática e criteriosa.

 

- Moraima: Quais professores mais o influenciaram pela escolha do Magistério e curso de Letras?

 

- Prof. Dercir: Há o professor Beoso, que é um grande sociólogo de prestigio internacional, a irmã Íride, que era minha professora. Quem era professora de Língua Portuguesa na época era também o professor de literatura portuguesa, então essas pessoas foram importantes na minha formação.

 

- Moraima: Cite um fato relevante positivo de seu período de graduação.

 

- Prof. Dercir: Foi positivo, no meu período de graduação, a vinda a São Paulo. A nossa professora de literatura francesa nos trouxe para São Paulo para assistir “La Comedie Francese”, que vinha de 10 em 10 anos ao Brasil. Então nós assistimos a duas peças teatrais com atores franceses. Isso foi em 1968. Além disso, nós também lutamos contra a estabilidade do professor sem diploma. Eu mesmo estive na TV tupi, em 1968, no programa Edição Extra combatendo isso e conseguimos.

 

- Moraima: Cite um fato relevante negativamente de seu período de graduação.

 

- Prof. Dercir: Praticamente na minha graduação fato negativo eu não tive não.

 

- Moraima: Quais disciplinas mais o influenciaram?

 

- Prof. Dercir: Duas disciplinas me influenciaram: a lingüística e a língua. Eu sempre gostei da sintaxe em Língua Portuguesa e nós analisávamos os versos de Camões em Os Lusíadas. Então o que acontecia, nós estudávamos ao mesmo tempo língua e literatura, eu estudava principalmente a sintaxe.

 

- Moraima: Como foi seu ingresso no Curso Superior enquanto professor?

 

- Prof. Dercir: Isso eu devo totalmente ao professor José Luis Fiorin da USP, que começou comigo, quer dizer, eu comecei com ele, fazendo especialização na UNESP de Araraquara.  Naquela época não havia especialização no Brasil, o professor Borba veio de Montpellier, na França, e montou esse curso e eu fui a convite do José Luis Fiorin fazer o curso e a partir daí começou minha carreira universitária.

 

- Moraima: Desde a faculdade já se imaginava como professor universitário? Comente.

 

- Prof. Dercir: Como eu fui locutor de rádio muito tempo, gosto de falar, converso fiado, então eu vi que tinha inclinação para ser professor e deu certo.

 

- Moraima: Em relação à pesquisa, foi uma descoberta gradativa? Ou já imperava esse desejo desde que começara?

 

- Prof. Dercir: Eu sempre tive vontade de fazer pesquisa, tanto é que quando entrei na universidade, eu já buscava elaborar projeto para desenvolvimento de pesquisa e sempre voltado para estudos da língua com também muita informação lingüística, porque eu havia feito especialização, dois anos de especialização em lingüística, em Araraquara, então eu já estava já enturmado nisso.

 

- Moraima: Como foi sua relação com alunos de Letras ao longo desses anos?

 

- Prof. Dercir: A minha relação foi muito boa, apesar de eu ferrar eles, eu dava nota baixa, mas eles gostavam muito de mim e eu sempre gostei deles. Nós nunca tivemos problema nenhum, trabalhamos juntos, elaboramos projetos juntos, desenvolvia semana acadêmica, fazia viagem de estudo, enfim foi uma..., eu me recordo muito disso e isso ai ainda é uma coisa que ainda pesa na minha cabeça, é a falta dessa convivência.

 

- Moraima: Como é a sua relação com os colegas de trabalho ao longo desses anos?

 

- Prof. Dercir: Sempre foi boa, nunca tive..., tanto é assim que eu sempre fui político, eu fui diretor 8 anos, eu fui coordenador do curso de direito durante 10 anos, quando havia eleição do representante docente eu era candidato e ganhava, então a gente sempre se deu bem.

 

- Moraima: O que é a universidade para você atualmente?

 

- Prof. Dercir: A universidade para mim hoje é o centro de irradiação do conhecimento e a grande oportunidade de ascensão social do pobre, é isso.

 

- Moraima: O que era a universidade na sua época de aluno ou ao início da carreira?

 

- Prof. Dercir: Antigamente poucas pessoas tinham a chance de estudar e possibilidade de estudar. Eu mesmo só consegui estudar porque trabalhava em uma radio, em Lins, e então era assim: eu trabalhava de manhã e a noite e a tarde eu fazia o Curso de Letras que começava as 12h30min e terminava as 17h.

 

- Moraima: Comente sobre sua produção científica desde sua opção teórica e professores ou colegas que o influenciaram.

 

- Prof. Dercir: A minha produção científica começou em uma revista do Câmpus de Três Lagoas, revista Veredas. Eu me lembro que escrevi sobre as funções da linguagem com base no texto de Jakobson e a partir daí como eu tinha conhecimento de lingüística, comecei a desenvolver estudos de projeto de pesquisa centrado na lingüística. Posteriormente, eu fiz o mestrado com base nos estudos estilísticos, até eu tenho uma publicação, a tendência foi sendo para a lingüística. Aí eu fiz o doutorado em sócio e o pós doutorado em sócio. Gosto muito do Labov, então fiquei centrado na lingüística quantitativa.

 

- Moraima: Se fosse homenagear a um ex professor, quem seria e por quê?

 

- Prof. Dercir: O Padre Beoso, porque era um intelectual já na década de 70 e muito prestigio, e a gente ficava assim apaixonado pelo tipo de comportamento, pelo tipo de procedimento, então é uma grata lembrança que eu tenho.

 

- Moraima: Se fosse homenagear a um colega ou amigo de trabalho, quem seria e por quê?

 

- Prof. Dercir: Colega de trabalho, eu seria injusto se eu fosse homenagear um. O colega que me fez dar um salto foi o Jose Luis Fiorin que foi professor da USP. Ele nem trabalhou aqui com a gente, mas foi o meu grande modelo, dediquei minha tese de doutorado para ele, é um exemplo de intelectual.

 

- Moraima: Que mensagem deixaria para os atuais acadêmicos de Letras?

 

- Prof. Dercir: O que eu quero é que esses caras façam é que eles estudem, que eles pesquisem e que eles tenham responsabilidade e aplicabilidade para se expressar bem, enfim sempre ter um sonho para poder ter mais força para chegar lá.

 

- Moraima: Que mensagem deixaria para os colegas de trabalho nessa longa caminhada?

 

- Prof. Dercir: Para os meus colegas de trabalho o que eu quero é o seguinte, como eu gosto muito de pós graduação, gosto de pesquisa, gosto de projeto, gosto de iniciação cientifica, eu queria que eles ajudassem os alunos a elaborarem o seu plano de trabalho para começar a fazer pesquisa e para ser um intelectual do futuro.

 

- Moraima: Se fosse recomeçar sua atividade profissional, o que faria de diferente ao longo de sua carreira?

 

- Prof. Dercir: Nada, nada.

 

- Moraima: Qual é a maior dificuldade de sua época como graduando?

 

- Prof. Dercir: Na minha época, tudo era mais difícil porque não havia bolsa alimentação, não havia bolsa de permanência, não havia bolsa de iniciação cientifica, não havia bolsa para o extensionista, não havia nada. Então, ou o sujeito conseguia sobreviver na marra, trabalhando e estudando ou então não consegui fazer curso.

 

- Moraima: Qual é a maior dificuldade do graduando de hoje?

 

- Prof. Dercir: O graduando de hoje, se eu for te falar a verdade ele não tem dificuldade nenhuma, hoje ele tem bolsas, bibliotecas, hoje ele tem apoios, hoje ele tem orientação. No meu tempo não havia doutor, o primeiro doutor com o qual nós trabalhamos foi com o professor Borba em 72, hoje na universidade todo mundo é doutor, então todo mundo tem condições de orientar, de ajudar em um projeto, de fazer um plano e carreira de curso.

 

- Moraima: Quais os dissabores evidenciados na academia? Comente.

 

- Prof. Dercir: O principal dissabor da academia é a inveja, o segundo dissabor é a ingratidão e outro dissabor é uma coisa que a gente não pode..., a gente não consegue identificar nem com teste de psicologia ou psiquiatria é o psicopata. Porque o psicopata se apresenta como o seu amigo e é um tremendo de um cara falso.

 

- Moraima: Lembra de algum aluno que tenha recebido influência sua para seguir carreira acadêmica? Comente.

 

- Prof. Dercir: São vários os alunos que começaram comigo na iniciação cientifica, depois foram meus orientandos na pós-graduação, no mestrado principalmente, e hoje eles estão trabalhando na universidade e são ótimos profissionais, porque eu tenho ótima referencias deles.

 

- Moraima: Comente o que é ser professor e pesquisador nos dias de hoje (fatos rotineiros e significativos).

 

- Prof. Dercir: Eu sempre tenho dito em reunião que o professor doutor tem três caminhos, ou ele vai ser aulista, ou ele vai ser extensionista ou ele vai ser pesquisador. Então nem todo mundo é pesquisador, tanto é que nós temos 580 professores e apenas 380 trabalham na pós graduação. Então o sujeito tem possibilidade de seguir o caminho que ele quiser desde que ele estude, desde que publique, desde que ele elabore projeto e enfim desde que ele se dedique à academia.

 

- Moraima: O que lhe proporcionou maior alegria na carreira acadêmica?

 

- Prof. Dercir: O que me dá alegria na carreira acadêmica é o sucesso dos meus alunos. Então sempre que eu vejo um aluno trabalhando numa universidade, sempre quando eu vejo um livro, eu vejo um artigo de um ex-aluno meu, enfim eu vejo aluno trabalhando na pós graduação, eu vejo aluno trabalhando em instituto de pesquisa ai é a maior felicidade que eu tenho.

 

- Moraima: Comente um pouco sobre sua pesquisa ao longo de sua carreira acadêmica.

 

- Prof. Dercir: Eu sempre procurei desenvolver um trabalho quantitativo com base no Labov com total influencia do meu orientador professor Fernando Tarallo, ex-professor da Unicamp e a maior autoridade em sociolingüística do Brasil. Então é a partir das idéias do Fernando, das aulas do Fernando, das leituras dos textos do Fernando é que saiu a minha carreira universitária e tem dado certo. O professor Fernando conseguia ligar a sociolingüística com a sintaxe e eu também, tenho conseguido, não com a competência dele, mas que satisfaz o lugar onde eu trabalho, às vezes os meus alunos, enfim tudo dá certo.

 

- Moraima: La na UEMS nós temos o bacharelado, o senhor acha que o bacharelado é um complemento a licenciatura ou ele por si já se basta?

 

- Prof. Dercir: São duas coisas distintas e o bacharelado ele se basta por si porque os objetivos são diferentes, enquanto na licenciatura você vai se dedicar, de certo modo, ao ensino, quase que obrigatoriamente ao ensino, no bacharelado você pode se dedicar tanto ao ensino quanto à pesquisa, enfim, como pesquisador, enfim outras atividades. O bacharelado está mais centrado no conhecimento do núcleo duro, então o sujeito vai desenvolver uns trabalhos com profundidade do conhecimento, enquanto na licenciatura, como existe essa obrigatoriedade de cursos de disciplina de educação, didática, psicologia, estrutura de funcionamento e que toma 50% do conhecimento especifico, o aluno fica privado desse saber. O aluno..., ou ele vai para a sala de aula estudar para tentar conseguir fazer um bom trabalho ou então ele não tem..., tanto assim que a licenciatura está em baixa hoje.

 

- Moraima: O senhor que deixar alguma mensagem?

 

- Prof. Dercir: Eu quero dizer que estou satisfeito com aquilo que fiz na universidade desde meu tempo de graduação em que participava de semanas acadêmicas, viagens de estudo, sempre fui preocupado com isso. Na universidade eu fui sempre preocupado com o trabalho do aluno na elaboração de plano de trabalho. Eu acho que a nossa função como professor pesquisador é fazer com que aquele conhecimento vá além daquilo que você sabe por meio das atividades dos alunos. Então o que eu quero mais é que eles estudem, que eles aproveitem essa oportunidade que o governo tem dado de bolsa, bolsa, bolsa, bolsa. Que eles sejam bens formados e grandes profissionais.

 

Considerações

 

Se há um momento de se fazer uma homenagem a alguém, esse momento é em vida de forma que ele possa receber o reconhecimento por sua trajetória. Na verdade, relutei em tornar pública as entrevistas em forma de homenagem conforme projeto, não sou muito afeito às homenagens póstumas, mas lembrei-me que já havia dito ao Prof. Dercir P. Oliveira que seria feita a homenagem e ele disse que se lembrava das alunas que o entrevistaram e que estava agradecido e iria ministra a aula inaugural, falaria de vida acadêmica de professor pesquisador e também de sua relação com a carreira de magistério. Se perdemos a sua “voz”, temos as suas palavras que poderão ser lidas e relidas etc. etc. Aqui fica a nossa homenagem ao Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira.

 

Referências Bibliográficas

 

ORLANDI, Eni P. Discurso e Texto. Formulação e Circulação dos Sentido. Campinas-SP: Pontes, 2002.