Apresentação

A Web-Revista Discursividade - Estudos Linguísticos chega a seu sétimo número com a presente edição do número temático: Neurolinguística Discursiva: reflexões iniciais e pesquisas atuais.

As investigações acerca da relação entre cérebro e linguagem remontam a antiguidade. Já no século XIX, a busca por respostas para tal questão trouxe clássicas descobertas para essa área cujo delineamento eclode somente em época mais recente com autores como Luria, Lebrun, os primeiros a utilizarem o termo Neurolinguística, focando aspectos lingüísticos das afasias e outras patologias em que a linguagem está envolvida. Contudo, apesar dessas contribuições, a Linguística que se dedica ao estudo da linguagem em funcionamento esteve e ainda está ausente da Neurolinguística nascida na área médica.

Tendo por objetivo suprir essa lacuna, entre os anos de 1980 e 1986, com orientação de Carlos Franchi, surgem as obras “Avaliar discursos patológicos” (de M. I. H. Coudry em coautoria com Sírio Possenti, artigo nesta edição reeditado) e “Diário de Narciso: discurso e afasia” (tese de doutorado em que a autora analisa os casos dos sujeitos N, P, e L, apresentando-os como sujeitos que, embora afásicos, exercem sua subjetividade na linguagem; tese essa publicada na integra em livro pela editora Martins Fontes, em 1988).

Mas o que é afasia? Nessa obra de M. I. H. Coudry (1988), a afasia é assim definida: “A afasia se caracteriza por alterações de processos linguísticos de significação de origem articulatória e discursiva (nesta incluídos aspectos gramaticais) produzidas por lesão focal adquirida no sistema nervoso central, em zonas responsáveis pela linguagem, podendo ou não se associarem a alterações de outros processos cognitivos. Um sujeito é afásico quando, do ponto de vista linguístico, o funcionamento de sua linguagem prescinde de determinados recursos de produção ou interpretação.

A partir de 1982, a Neurolinguística passa a ser oferecida como disciplina em cursos de graduação e, em 1986, a fazer parte do programa de pós-graduação em Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

A Neurolinguística desenvolvida no IEL, cuja identidade está principalmente na abordagem lingüística e discursiva, tem - em seu desdobramento - a natureza dos trabalhos se bifurcando em duas temáticas principais, com o acompanhamento de sujeitos cérebro-lesados (sobretudo por AVC e traumatismo craniano) e sujeitos (crianças ou não) com dificuldades de aprendizagem (muitas vezes, por exemplo, com diagnósticos de dislexia, Tdah e dificuldades de aprendizagem)

Muito há ainda para se falar e se explicitar sobre a Neurolinguística Discursiva, mas para não incorrermos em redundância, convidamos o leitor iniciante a aprofundar seus conhecimentos por meio da leitura dos artigos presentes nesta edição, que trazem reflexões iniciais relacionadas à constituição da Neurolinguística Discursiva e à história dos estudos da afasia. Este número traz também reflexões atuais resultantes de pesquisas desenvolvidas no âmbito do Grupo de pesquisa, reunido em torno do Projeto Integrado em Neurolinguística: práticas com a linguagem e documentação de dados (CNPq 307227/2009-0), em Neurolinguística do IEL-Unicamp, que atende tanto aos iniciantes quanto aos estudantes e pesquisadores já atuantes.

Boa leitura a todos!

Maria Irma Hadler Coudry

Mara Lúcia Fabricio de Andrade