APRESENTAÇÃO

             Este número 6 do periódico Web-Revista Discursividade – Estudos Linguísticos faz uma pequena homenagem ao professor João Wanderley Geraldi, autor de destaque tanto para linguistas e analistas do discurso, quanto para educadores e pessoas interessadas nas questões sobre ensino e aprendizagem de língua materna. Trata-se de um pesquisador que exerce forte influência tanto no cenário acadêmico quanto no ensino brasileiro por suas ideias inovadoras e, por isso, desestabilizadoras.

             Para quem o teve como professor e orientador há muito mais a dizer. Da convivência com o mestre, muitos momentos marcantes podem ser destacados. As conversas e orientações na sala do IEL, ele, leitor generoso e arguto, sempre com suas “sacadas geniais”. Suas aulas maravilhosas, verdadeiros alumbramentos, era preciso chegar cedo para pegar um lugar na frente. A cada final de curso ele nos presenteava com textos inéditos, que seriam depois publicados, “pedaços” de sua obra cuja gestação e nascimento presenciávamos. Em um desses momentos, que vamos levar por toda a vida, antes de iniciar a leitura do texto, ele pediu licença para ler um poema de Brecht, e o dedicou a seus orientandos, sim, a nós, ali presentes!

 

 

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

 

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

(Aos que virão depois de nós)

 

 

E tantos outros momentos! Em todos eles pudemos constatar aquilo que a leitura de sua obra revela: o pesquisador que não se esconde sob o manto protetor da “ciência”, que não tem medo de se mostrar inteiro, de se posicionar. Um linguista atípico, que circula com segurança por vários campos de conhecimento/saberes, desenvolvendo sua reflexão “fora do aquário de uma teoria”, já que “as paredes de um aquário não permitem nem o mergulho vertical da profundidade, nem o nado largo da horizontalidade onde se dão os encontros com outros campos e outros saberes”.

            Parte das reflexões de Geraldi pode ser encontrada na entrevista que abre este volume, gentilmente concedida a nós organizadoras. Dela gostaríamos de destacar, como contrapalavra que suas ideias nos suscitam, a diferença entre ensino e aprendizagem e suas consequências nas atividades didáticas. A defesa das práticas e da aprendizagem (que, para o professor, são espaço de reflexão e de abertura para o novo, e que deveriam ter prioridade sobre o ensino tradicional, em que se aprende um conteúdo pré-fixado) é tema recorrente em seus textos, palestras e aulas, renovado a cada acontecimento. Já em O texto na sala de aula, livro organizado pelo autor na década de 1980, encontram-se “propostas de ensino” que elegem a análise linguística como um dos lugares de ensino/aprendizagem da língua, de seus recursos expressivos. Tal prática pode(ria) ser desenvolvida por meio de atividades com/de/sobre a língua que levariam em conta o conhecimento linguístico do aprendiz. No mesmo livro, em outro artigo, o autor propõe que, na escola, se produzam “textos” e não “redações” – uma diferença entre ambos é que os primeiros contam com a leitura efetiva dos professores, que são interlocutores dos textos produzidos. Assim, o texto seria tomado pelo professor como um espaço de interação com os alunos, e não seria simplesmente um objeto de ensino. Também, nesse aspecto, encontramos na leitura e escrita produzidas em sala de aula um espaço de compartilhas, em que se dá a aprendizagem, não o ensino no sentido tradicional do termo. Veja-se que, neste momento da produção de Geraldi, na década de 1980, já se concebe a necessidade de considerar as atividades didáticas como espaço de produção de conhecimento compartilhado, o que nos parece uma ideia ainda profundamente inovadora, se considerarmos a realidade escolar brasileira atual.

            Essas e outras reflexões o leitor encontra na entrevista a seguir. E os artigos/resenha que a ela se seguem indiciam como as ideias do nosso homenageado frutificaram, nas contrapalavras que seus orientandos, alunos e amigos dão às suas, na compartilha de produção de conhecimento. Como o espaço de publicação é pequeno, esperamos que esta pequena homenagem se some às tantas que o professor merece. De nossa parte, gostaríamos de agradecer o editor da revista, pela oportunidade de organizar este número, agradecer os autores, pela colaboração com suas contrapalavras, e também agradecer o Wanderley por compartilhar conosco e com os leitores suas ideias.

 

 

Jauranice Rodrigues Cavalcanti

Marina Célia Mendonça

Organizadoras