Apresentação

 

A história do mundo tem sido também uma história de teorias e pesquisas sobre a linguagem. Do Renascimento à Port-Royal, do Romantismo ao “giro lingüístico” têm sido evidentes as realizações dos estudos sobre a linguagem envolvendo desafios ou conquistas fundamentais sobre as implicações da linguagem na organização, dinâmica, crise ou transformação da sociedade. O século XX acentua e generaliza as preocupações com a linguagem envolvendo novos problemas onde se defrontam e se cruzam a filosofia, a literatura e as ciências sociais: língua e fala, código e mensagem, comunicação e informação, signo e semiótica, índice e símbolo, gramaticalização e informática, texto e contexto, etc. Marca desse século é a problematização, atravessada por rupturas históricas e controvérsias epistemológicas que nos obrigam a debruçar-nos sobre as implicações histórico-sociais e civilizatórias da linguagem, obrigando-nos a refletir sobre os segredos da língua, do signo, do símbolo.

A língua revela-se produto e condições das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais, pois se constitui como o patamar da história, o sistema de signos por meio do qual se pronunciam o presente, o passado e o futuro. Há momentos em que a língua emudece, seja porque não há o que dizer, seja porque nada é necessário dizer ou, ainda, porque não há como dizer. É como se a palavra não fosse capaz de exprimir o indizível, inventada ainda não fosse, ou o fosse totalmente dispensável: não se encontra o nome, o signo, o símbolo, a figura ou a figurativização e esse mistério da palavra esconde-se tanto no autor como no leitor, da mesma forma que na forma de dizer o como se disse... jogos de linguagem... rearranjos... desdobramentos de signos, ou ícones, ou símbolos... linguagem caleidoscópica... criam-se simulacros... limite... experiência onde se escondem algumas das possibilidades como se fora signo autosuficiente, que subsiste independente, formando-se, conformando-se e transformando-se na trama das relações sociais.

A presente coletânea de textos tem como base teórica a Semiótica, que possui suas bases inaugurais dominantemente assentadas em um arcabouço estrutural e que reintroduz a questão do sentido como questão central nos estudos da linguagem. Diferentemente de outras orientações teóricas que também privilegiam a questão do sentido, a Semiótica propõe uma descrição da significação em geral, descrição esta que compreende uma instância de sentido comum a diferentes linguagens, tais como textos verbais, não-verbais e sincréticos.

A Semiótica, entendida aqui como a semiótica de base greimasiana, mantém fortes relações com a lingüística e grande penetração nos cursos de Letras das Universidades brasileiras, incluindo-se entre as reflexões que vêm responder diretamente ao chamado que conclama o reconhecimento de um objeto, ao mesmo tempo que convida a um modo científico de tratá-lo. Nesse sentido, a Semiótica finca suas bases, mas vai, ao mesmo tempo, especificar seu objeto e sua trajetória teórica, sendo o seu objeto a significação não como algo que se dá integralmente e de uma vez por todas, mas como o resultado de articulações do sentido, diferentemente do posicionamento de que sobre o sentido nada se pode ou se deve dizer, por ser evidente.

A Semiótica, suas preocupações primárias, estão na explicação por meio do qual o sentido se constitui; a Semiótica busca o quê por vias do como. Não se preocupa com o sentido verdadeiro, mas, antes, o parecer verdadeiro, o simulacro; busca a totalidade, o parecer verdadeiro, o simulacro, não o sentido verdadeiro, através de um percurso chamado de gerativo que, juntamente com a lingüística enunciativa, incorpora em seus

domínios a questão da enunciação.  

Assim, a Semiótica é definida como uma teoria geral da significação, uma teoria da linguagem. Não uma teoria particularmente lingüística, embora sua herança esteja na lingüística. Nas suas origens, a Semiótica mostra preocupação e rigor na delimitação de um objeto homogêneo, na construção de um modelo a descrever a universalidade da significação. Assim, a Semiótica é considerada, desde o seu princípio, não uma teoria acabada, mas um projeto teórico que vai, na sua trajetória, desenvolvendo um corpo de conceitos e estendendo os domínios de sua reflexão de modo a abranger, sucessivamente, aspectos da significação a que renunciou, anteriormente, em nome de um princípio de homogeneidade.

Essa coletânea está assim organizada: num primeiro momento, o professor Anailton de Souza Gama, da UEMS e do CPLT-UFMS discorre sobre a iconografia representativa sul-mato-grossense em artigo intitulado “Mato Grosso do Sul – Estado do Pantanal” – Do projeto iconográfico à construção do sentido” tendo como ponto de partida a implantação do Governo Popular de Zeca do PT, em 1998 e o surgimento da iconografia designada como “bicharada no cimento” e que constrói, segundo o autor, um simulacro de uma realidade. Tomando como enunciador o Estado de Mato Grosso do Sul, representado pelo Governo Popular de Zeca do PT, o autor analisa o percurso gerativo de sentido realizado por esse enunciador – que cumpre com o papel de destinador-manipulador, levando o enunciatário – povo – a crer e fazer, isto é, através de uma “camuflagem objetivante” constrói um simulacro do tempo presente nos termos de um “contrato fiduciário” de relação de confiança\confidência.

Eliane Aparecida Miqueletti, em AS REPORTAGENS DOS CASOS DE DESNUTRIÇÃO INDÍGENA EM DOURADOS: ESCOLHAS TEXTUAIS COMO ESTRATÉGIAS DE ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO apresenta como determinadas escolhas textuais: fotografias, tempos verbais, recorrência de determinadas informações, rubricas, contribuíram para que os jornais douradenses, “O Progresso” e “Diário MS”, enfatizassem a situação de abandono e de miséria nas aldeias indígenas do sul do Mato Grosso do Sul em reportagens sobre os casos de desnutrição infantil indígena. Além disso, como essas escolhas auxiliaram na construção do simulacro de comprometimento do enunciador e na tentativa de despertar para a emoção do enunciatário que, assim, atingido pela forma de enunciar passa a querer entrar em conjunção e a acompanhar as notícias sobre os casos de desnutrição, ou seja, constituem-se em estratégias de argumentação e de persuasão.

Jefferson Barbosa de Souza, em artigo intitulado DISCURSO, IDEOLOGIA E INDIVIDUALIZAÇÃO DO SUJEITO NO CORPO SOCIAL BRASILEIRO, por meio de enunciados provenientes de três revistas nacionais, procura mostrar o funcionamento da individualização do sujeito pertencente ao crime no discurso midiático propondo que a individualização faz parte do funcionamento do corpo social. Romida Meira de Souza Barbosa, do CPTL-UFMS, partindo de conceitos da Semiótica de A. J. Greimas, aborda o percurso gerativo de sentido, na esfera do plano de conteúdo, do texto Amante Profissional, de composição de Roberto Lly, da Banda Herva Doce, em 1985, divulgada em álbum de mesmo nome.

Espera-se, com essa publicação dedicada à Semiótica persuadir o leitor – através da tentação - por um querer, tendo em vista que, no âmbito da Universidade de onde falamos, é tímida a presença dessa teoria e escassas as publicações na área. Esse pontapé inicial foi dado na esperança de novos pesquisadores-autores surjam e façam parte desse círculo.

 

Saudações acadêmicas

Nova Andradina-MS, Março de 2009.

Anailton de Souza Gama